Crianças, Cães e Gatos: Um Contato Benéfico

Temos poucos estudos na literatura médica sobre o efeito do contato de animais associado à prevalência de infecções do trato respiratório em crianças. Alguns estudos mostraram que o contato com cães e gatos (as evidências são menores para contato com gatos) parece diminuir o número de episódios de resfriados comuns durante a infância. No entanto, em outros estudos os animais de estimação também têm sido considerados um possível fator de risco para infecções respiratórias frequentes.
Há necessidade médica de elucidar melhor a interação entre a exposição de pets às crianças no desenvolvimento das primeiras infecções do trato respiratório, porque isto pode fornecer uma visão indireta sobre os fatores que afetam a maturação das respostas imunes e seus distúrbios, como, por exemplo, a asma. Além disso, reconhecer os fatores de risco para infecções respiratórias durante a infância é importante porque pode haver uma ligação entre infecções na infância e as doenças respiratórias crônicas na vida adulta.

Segundo artigo publicado na revista Pediatrics,1 em agosto de 2012, o contato com animais é importante no primeiro ano de vida, porque possivelmente isto aumentaria a 'resistência' das crianças às doenças infecciosas respiratórias.Pesquisadores da Universidade de Kuopio, na Finlândia, investigaram o efeito do contato de cães e gatos sobre as frequências de sintomas respiratórios e infecções durante o primeiro ano de vida. Para isto acompanharam 397 crianças desde a gravidez até o primeiro ano de vida. Coletou-se a frequência do aparecimento dos sintomas respiratórios e infecções além de informações sobre o contato com os pets por meio de diários semanais e um questionário feito quando completaram um ano. Segundo este estudo, as crianças que vivem em casas em que os cães passam a maior parte do dia (definido como seis horas) apresentaram menor risco de ter doenças respiratórias.

Uma possível explicação para este achado é que a quantidade de sujeira trazida para as casas por cães poderia ser maior nessas famílias. Neste sentido, a hipótese da higiene, proposta por Strachan,2 corrobora esta hipótese, uma vez que sugere que os ambientes mais higiênicos na infância poderiam ser responsáveis peloaumentonas doenças alérgicas.

Na análise multivariada dos resultados da pesquisa em Kuopio,percebeu se que as crianças que tinham cães em casa eram mais saudáveis, apresentaram menos episódios de otite e necessitaram menos de antibioticoterapia que crianças que não tiveram contato.

Sob análise univariada tanto a quantidade semanal de contato com cães e gatos quanto a quantidade média anual de contato associaram-se com a diminuição da morbidade da doença respiratória infecciosa.

Os resultados deste trabalho sugerem que os contatos com cães podem ter efeito protetor sobre as infecções do trato respiratório durante o primeiro ano de vida.

As evidências sugerem que o contato com animais, especialmente no início da vida, pode ser crucial para o desenvolvimento da imunidade3 e na garantia de respostas eficazes para infecções virais. Para os autores, o contato com animais poderia ajudar a 'amadurecer' o sistema imunológico, levando uma resposta imunológica mais efetiva e menor duração de infecções.

Lappalainen et al.4 relataram uma diminuição da produção do fator de necrose tumoral no nascimento e no primeiro ano de vida em crianças expostas aos cães no início da vida, sugerindo que a exposição precoce a cães durante a vida pode reduzir a resposta imune inata já no nascimento. Os resultados deste estudo apoiam os de Hatakka et al.,5 que relataram que o contato com animais de pelo diminuiriam o risco de recorrência de doenças respiratórias agudas em crianças de um a seis anos de idade.

Belanger at al.6 revelam que a posse de um gato de estimação parece ter também um efeito geral de proteção, embora mais fracas que a posse de um cão em se tratando sibilância em crianças. A pediatria, como referência científica no cuidado de crianças, tem se mostrado volumosa e dinâmica na resposta às nossas dúvidas diárias de aconselhamento dos pais de nossos pacientes. Vale o bom senso na escolha sobre os nossos pareceres, ao passo que devemos incorporar as evidências científicas à prática clínica.

REFERÊNCIAS

1. Bergroth E, Remes S, Pekkanen J, Kauppila T, Buchele G, Keski-Nisula L. Respiratory tract illnesses during the first year oflife:effectofdogandcatcontacts.Pediatrics.2012;130:211.

2. Strachan DP. Family size, infection and atopy: the first decade of the'hygienehypothesis'.Thorax.2000;55(suppl1):S2-10.

3. Bufford JD, Reardon CL, Li Z, Roberg KA, DaSilva D, Eggleston PA, et al. Effects of dog ownership in early childhood

on immune development and atopic diseases. Clin ExpAllergy. 2008;38(10):1635-43.

4. Lappalainen MH, Huttunen K, Roponen M, Remes S, Hirvonen MR, Pekkanen J. Exposure to dogs is associated with a

decreased tumour necrosis factor-a-producing capacity in early life.ClinExpAllergy.2010;40(10):1498-1506

5. Hatakka K, Piirainen L, Pohjavuori S, Poussa T, Savilahti E, Korpela R. Factors associated with acute respiratory illness in

daycarechildren.ScandJInfectDis.2010;42(9):704-11.

6. BelangerK,BeckettW,TricheE,BrackenMB,HolfordT,RenP, et al. Symptoms of wheeze and persistent cough in the first year

of life: associations with indoor allergens, air contaminants, and maternal history of asthma. Am J Epidemiol. 2003;158(3):195-

202.

Transcrito por Arthur Alonso Almeida Souza adaptado de:

Rev. Fac. Ciênc. Méd. Sorocaba, v. 17, n. 1, p. 53, 2015

1.Acadêmico do curso de Medicina - FCMS/PUC-SP

2. Professora do Depto. de Medicina - FCMS/PUC-SP

Recebido em 14/8/2013.Aceito para publicação em 4/11/2014.

 

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