O QUE É FARMACODERMIA?

As reações adversas à droga podem comprometer diversos órgãos ou sistemas, porém, quando existe comprometimento cutâneo é chamada de farmacodermia, também conhecida como erupção por fármaco, reação cutânea medicamentosa, toxidermia, dermatose medicamentosa ou dermatite medicamentosa.

Apesar de pouco frequente em cães e gatos, sabe-se que uma reação farmacodérmica mimetiza uma variedade de dermatoses, portanto, o inquérito sobre os fármacos administrados a qualquer paciente que apresente dermatopatia é fundamental, principalmente pelo fato de alguns fármacos serem associados com reações cutâneas em maior frequência. Estima-se que a incidência em cães e gatos seja de 2% e 1,6%, respectivamente; que não difere muito da incidência relatada em pacientes humanos de 1 a 3%.

Não há predisposição quanto ao gênero e idade em cães ou gatos e, em geral, não há predisposição racial, embora os autores destaquem que o Poodle, Bichon frisé,Yorkshire terrier e Maltês parecem ser mais predispostos a reações cutâneas no local de aplicação (principalmente a vacina anti-rábica), bem como o Doberman às sulfonamidas e o Schnauzer miniatura às sulfonamidas e a alguns xampus. 

Em animais, as sulfonamidas, penicilinas, cefalosporinas, levamisol, agentes tópicos e dietilcarbamazina são os fármacos comumente associados às erupções cutâneas, mas existe um grande número de fármacos usados na rotina que desencadeiam a afecção nos animais predispostos, como: amoxicilina com clavulanato, cetoconazol, enrofloxacina, ciclosporina e até glicocorticóides. É importante ressaltar que a reação adversa à droga pode ocorrer depois de uma, várias administrações ou após anos de tratamento com o mesmo fármaco e que uma mesma droga pode ser responsável por várias manifestações dermatológicas de acordo com a resposta imune do indivíduo.

As reações adversas a medicamentos podem ser divididas em: alérgicas ou não alérgicas e ainda em reações previsíveis, que são geralmente dose-dependente e estão relacionadas com as ações farmacológicas das drogas; e imprevisíveis ou idiossincráticas, que são muitas vezes independentes da dose e estão relacionados com resposta imunológica do indivíduo ou de diferenças genéticas na suscetibilidade dos pacientes, como alterações metabólicas ou deficiências enzimáticas. A literatura descreve diversos mecanismos imunes e não imunes envolvidos nas farmacodermias.

Com relação ao quadro dermatopático, a reação cutânea medicamentosa é caracterizada por lesões cutâneas ou mucocutâneas pleomórficas, variavelmente pruriginosas, algumas vezes acompanhadas de manifestações sistêmicas e desencadeadas pela administração de um fármaco por via tópica, oral ou injetável. A manifestação cutânea é variada ​​e pode ser caracterizada por: pápulas, placas, pústulas, vesículas, bolhas, púrpuras, eritema, urticária, angioedema, alopecia, eritema multiforme, necrólise epidérmica tóxica, descamação, erosões e ulcerações. Com relação a distribuição das lesões, elas podem ser localizadas, multifocais ou difusas. O prurido e a dor local podem estar presentes, além de manifestações sistêmicas como febre e prostração.

Dentre os padrões de reação cutânea, destaca-se principalmente o eritema multiforme (EM), Síndrome de Stevens-Johnson (SSJ) e necrólise epidérmica tóxica (NET), estas são importantes pelo fato de, não raramente, progredirem para um desfecho fatal, apesar dos esforços terapêuticos.

Devido à grande variedade de apresentações clínicas, ao fato de as características da erupção cutânea serem similares à de outras doenças de pele e, também, porque, em muitos casos, o paciente é exposto a mais de um fármaco simultaneamente, o diagnóstico pode ser difícil. Alguns autores referem que o diagnóstico do EM, SSJ e NET é meramente clínico-patológico. Portanto, o exame histopatológico é um recurso utilizado para exclusão dos diagnósticos diferenciais e confirmação do diagnóstico associado aos achados clínicos. Os resultados do exame histopatológico variam de acordo com a morfologia das lesões e não distingue, de forma confiável, entre as formas clinicamente leves e graves da doença. 

Com relação ao tratamento, a primeira medida a ser adotada quando do diagnóstico de reação adversa às drogas é a interrupção de qualquer fármaco suspeito que esteja sendo ou tenha sido administrado nas últimas duas a quatro semanas pré manifestações prodrômicas. Deve-se também evitar o uso de qualquer outro ativo de mesma classe. O tratamento de suporte é baseado na antibioticoterapia, tratamento tópico, fluidoterapia em casos graves e alguns autores defendem o uso de imunoglobulina humana, apesar de oneroso. Algumas reações cutâneas podem ser pouco responsivas aos glicocorticóides, embora, no geral, as reações mediadas imunologicamente costumeiramente respondem de forma favorável aos glicocorticóides, pentoxifilina e outros ativos imunossupressores.

Em lesões extensas as sequelas e o prognóstico são semelhantes aos de uma extensa queimadura de segundo grau, devido a perdas de fluido, eletrólitos, infecções secundárias e a sepse, consequentes da perda da função da barreira epidérmica. Porém, o prognóstico é considerado bom para os casos de reação cutânea medicamentosa, quando não há envolvimento de outros órgãos ou extensa necrose epidérmica.

 

Escrito por: 

M.V. Fernanda Lima Sgroi (Clínica Médica / Dermatologia Veterinária)

Graduada em Medicina Veterinária pela Universidade de São Paulo;

Residência na área de Clínica Médica de Pequenos Animais pela FMVZ-USP;

Membro da equipe Dermatologia Veterinária;

Sócia da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária.

 

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